Talvez o maior problema enfrentado atualmente por uma prefeitura da Região Metropolitana não esteja necessariamente na oposição.

Pode estar dentro da própria estrutura administrativa.

Na política, a expressão “fogo amigo” é usada para definir ataques, vazamentos, intrigas e movimentos de desgaste provocados por integrantes ou aliados do mesmo grupo político que acaba sendo atingido.

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Esse tipo de situação costuma ganhar força quando começa a disputa interna pelo poder.

Cargos, influência, proximidade com quem governa, controle político de determinadas áreas e projetos eleitorais futuros podem fazer com que antigos aliados passem a enxergar uns aos outros como concorrentes.

A partir daí, surge um jogo perigoso: para conquistar mais espaço dentro do grupo, alguém pode entender que precisa enfraquecer o outro.

E quando essa disputa chega às redes sociais, o potencial de desgaste pode ser ainda maior.

Das disputas internas às redes sociais

Perfis anônimos, páginas políticas, grupos de WhatsApp e redes coordenadas podem ser utilizados para ampliar ataques, rumores e informações fora de contexto.

É nesse ambiente que surge a expressão “milícias digitais”, que deve ser usada com responsabilidade e não como acusação automática contra qualquer página crítica ou adversário político.

Quando esse tipo de estrutura efetivamente existe, o mecanismo pode ser relativamente simples: uma informação nasce nos bastidores, chega às redes sociais, ganha repercussão e depois retorna à administração transformada em uma crise política.

O fogo começa dentro e a fumaça aparece do lado de fora.

Enquanto integrantes do próprio grupo entram em conflito, a oposição muitas vezes sequer precisa fazer esforço para explorar o desgaste.

Quem ganha com uma gestão dividida?

Certamente não é a população.

Uma prefeitura consumida por disputas internas perde tempo, energia e capacidade de concentração.

Em vez de manter o foco em obras, saúde, educação, limpeza urbana, mobilidade e serviços públicos, integrantes da administração podem acabar dedicando esforços para administrar crises políticas criadas dentro do próprio grupo.

É nesse cenário que surge uma pergunta:

Existe interesse em fortalecer a administração ou já existe uma guerra antecipada pela sucessão e pelo controle do poder?

Se houver fogo amigo, quem governa precisa descobrir rapidamente onde está o foco do problema.

Liderança é fundamental para apagar o incêndio

O combate começa pela liderança.

É necessário estabelecer responsabilidades, fortalecer a comunicação institucional, ampliar a transparência e impedir que interesses individuais sejam colocados acima do projeto administrativo.

Também é fundamental diferenciar crítica de sabotagem.

Divergências fazem parte da política e não podem ser automaticamente tratadas como ações para prejudicar uma gestão.

Da mesma forma, eventuais campanhas coordenadas de desinformação, ameaças ou utilização de perfis falsos para atacar pessoas precisam ser documentadas e, quando houver indícios de ilegalidade, encaminhadas às plataformas e às autoridades competentes.

O projeto da cidade precisa estar acima dos interesses pessoais

Quem ocupa uma função pública precisa entender uma regra elementar: o projeto pessoal não pode ser maior que o projeto da cidade.

Em uma democracia, oposição, imprensa e população cumprem papéis diferentes, mas igualmente legítimos: fiscalizar, questionar e cobrar aqueles que estão à frente da administração pública.

O problema começa quando integrantes de um mesmo grupo político passam a trabalhar uns contra os outros em uma disputa permanente por espaço e poder.

Nesse cenário, a administração corre o risco de começar a ruir por dentro.

E talvez esteja justamente aí um dos maiores perigos para uma gestão.

Na política, muitas vezes o incêndio mais difícil de apagar não começa do outro lado do muro.

Começa dentro de casa.