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Natal possui uma ampla estrutura voltada à coleta e à limpeza urbana, com cobertura de 99,2% da coleta domiciliar, segundo informação oficial disponibilizada pela Prefeitura. O índice mostra que o serviço de recolhimento do lixo das residências alcança praticamente toda a capital.
Mas a cobertura da coleta é apenas uma parte da discussão sobre limpeza urbana. Registros recentes da Câmara Municipal mostram solicitações relacionadas a limpeza, capinação, varrição, retirada de lixo e remoção de entulhos em diferentes regiões da cidade.
O cenário levanta uma questão que vai além de saber se o caminhão passa pelas ruas: Natal apresenta um padrão de limpeza compatível com os recursos destinados ao serviço?
A resposta depende não apenas da cobertura da coleta domiciliar, mas também da qualidade e regularidade de outras etapas, como varrição, capinação, retirada de resíduos, transporte, destinação final e fiscalização.
Quem cuida do lixo de Natal?
A gestão do sistema de limpeza urbana de Natal está sob responsabilidade da Companhia de Serviços Urbanos de Natal, a Urbana. A execução dos serviços, entretanto, envolve empresas privadas contratadas para diferentes etapas do sistema.
Segundo informações oficiais e documentos públicos consultados, a estrutura envolve a Urbana na administração, planejamento e fiscalização do sistema de limpeza pública. A Marquise Serviços Ambientais atua na execução da coleta domiciliar e em serviços relacionados ao manejo e transporte dos resíduos. A Braseco é responsável contratualmente pela destinação dos resíduos sólidos, enquanto a Zelo Recursos Humanos possui contrato relacionado à execução e manutenção do sistema de limpeza pública.
Essa divisão é importante para entender os custos. Coletar o lixo das residências, transportar os resíduos, realizar varrição e capinação e garantir uma destinação ambientalmente adequada são atividades diferentes, com contratos e custos próprios.
Por isso, o valor gasto pelo município com o lixo não pode ser resumido a um único contrato.
Contrato da Marquise chega a R$ 485 milhões
Um dos maiores valores relacionados ao sistema de limpeza urbana está no contrato da Marquise.
O valor global divulgado para a contratação chegou a R$ 485.192.253,60. O processo passou pelo Tribunal de Contas do Estado antes de sua conclusão.
O número, porém, precisa ser interpretado corretamente. Os R$ 485,2 milhões não representam o gasto mensal ou anual da Prefeitura com a coleta de lixo.
Trata-se do valor global da contratação. O desembolso efetivo depende do prazo contratual, das medições realizadas, dos serviços efetivamente executados e dos pagamentos processados pela Urbana.
Por isso, dividir simplesmente os R$ 485,2 milhões por 12 meses produziria uma informação incorreta sobre o custo mensal do serviço.
E depois que o caminhão recolhe o lixo?
A limpeza urbana não termina quando o caminhão passa pela residência e recolhe os resíduos.
Depois da coleta, o material precisa ser transportado e receber uma destinação ambientalmente adequada. Essa etapa envolve outro contrato dentro da estrutura de limpeza urbana de Natal.
Documentação da Urbana identifica a Braseco como contratada para a destinação de resíduos sólidos, por meio do Contrato nº 015/2025-GDP/URBANA.
Na prática, para compreender quanto custa o sistema de lixo da capital, é necessário considerar pelo menos duas grandes etapas: coleta e transporte, de um lado, e destinação final, de outro.
Além delas, existem ainda outros componentes da limpeza pública, o que torna inadequado utilizar apenas um contrato para calcular o custo total do serviço.
Mais R$ 16,8 milhões em outro contrato
Outro contrato relevante envolve a Zelo Recursos Humanos. A prorrogação publicada em julho de 2026 possui valor de R$ 16.788.936,90 para 180 dias.
Considerando apenas uma divisão matemática do valor pelos seis meses de duração, chega-se a aproximadamente R$ 2,8 milhões por mês durante o período.
É importante, porém, não confundir esse cálculo com o custo mensal da coleta domiciliar. O valor corresponde a outro componente do sistema de limpeza pública.
Essa distinção é fundamental para evitar que diferentes contratos sejam somados ou interpretados de maneira equivocada.
Afinal, quanto Natal gasta por mês com seu lixo?
É justamente nesse ponto que aparece uma das principais questões relacionadas à transparência dos gastos públicos com a limpeza urbana.
Os documentos consultados permitem identificar contratos milionários, empresas envolvidas e diferentes etapas do sistema. Entretanto, não apresentam em um único demonstrativo público simplificado quanto a Prefeitura efetivamente desembolsa, mês a mês, considerando conjuntamente coleta, transporte e destinação final dos resíduos.
Para chegar ao valor exato, seria necessário consolidar as medições e os pagamentos efetivamente realizados à Marquise e à Braseco em cada mês.
A diferença entre contratação e pagamento é essencial. Valor contratado não é necessariamente igual ao valor pago.
Para o cidadão, uma prestação de contas mais simples permitiria visualizar, por exemplo, quanto é destinado mensalmente à coleta e ao transporte, quanto é gasto com a destinação final, quanto vai para os demais serviços de limpeza, qual é o total desembolsado, quantas toneladas são recolhidas e qual é o custo médio por tonelada.
Com essas informações reunidas, seria possível avaliar não apenas quanto custa o serviço, mas também qual resultado ele entrega.
TCE já acendeu alerta sobre outro contrato
A necessidade de atenção sobre os contratos de limpeza urbana também aparece em uma decisão do Tribunal de Contas do Estado.
Em fevereiro de 2026, o TCE/RN determinou a suspensão de uma licitação da Urbana estimada em aproximadamente R$ 4 milhões mensais. O procedimento era destinado a serviços complementares, incluindo varrição, capinação, roçagem de vias e logradouros e limpeza de praias.
Na ocasião, o Tribunal apontou problemas relacionados à metodologia de medição e risco de sobrepreço.
O episódio reforça a importância da fiscalização dos contratos e da transparência na utilização dos recursos públicos destinados à limpeza urbana, especialmente diante dos valores envolvidos no sistema.
Cobertura de 99,2%, mas há pedidos de limpeza
O índice de 99,2% de cobertura da coleta domiciliar é expressivo, mas não significa, por si só, que todos os problemas de limpeza urbana estejam resolvidos.
Coleta domiciliar e limpeza urbana são conceitos mais amplos. Uma cidade pode ter ampla cobertura de coleta e, ainda assim, apresentar problemas relacionados à varrição, capinação, descarte irregular, acúmulo de entulho ou manutenção de determinados espaços públicos.
Registros recentes da Câmara Municipal apresentam pedidos relacionados à limpeza pública em áreas de Passo da Pátria, Neópolis, Santos Reis, Lagoa Azul, Potengi e Candelária, entre outras localidades.
Também aparecem solicitações recentes envolvendo Nova Natal, Nova Descoberta, Cidade Nova, Cidade da Esperança, Bom Pastor, Pajuçara e Praia do Meio.
Os requerimentos apresentados por vereadores não constituem, isoladamente, uma auditoria sobre a qualidade do serviço. No entanto, a distribuição das solicitações por diferentes regiões mostra que existem pontos onde representantes da população identificaram necessidade de intervenção.
Natal precisa melhorar
Para uma capital turística, a discussão sobre limpeza urbana não pode ficar restrita aos principais cartões-postais.
É necessário observar também ruas, canteiros, praças, bairros residenciais, terrenos públicos, praias e corredores comerciais. A qualidade da limpeza precisa ser percebida no cotidiano de quem vive na cidade.
Entre os pontos que precisam ser acompanhados estão a regularidade da varrição e da capinação, a velocidade na retirada de lixo e entulho, a fiscalização contra o descarte irregular e a transparência sobre os custos e o desempenho dos contratos.
A população também tem responsabilidade nesse processo. O descarte de lixo e entulho em vias públicas, terrenos e canteiros pode transformar rapidamente áreas limpas em novos pontos de acúmulo de resíduos.
Ao poder público, por sua vez, cabe organizar, executar e fiscalizar o sistema para garantir que os recursos destinados à limpeza resultem em serviços eficientes.
Milhões contratados precisam aparecer nas ruas
Natal possui uma cobertura de coleta domiciliar de 99,2%, contratos milionários, empresas responsáveis por diferentes etapas do serviço e uma companhia municipal encarregada de administrar e fiscalizar o sistema.
Diante desse cenário, o debate precisa avançar da simples cobertura da coleta para a discussão sobre eficiência, qualidade e resultado.
A Prefeitura e a Urbana poderiam publicar mensalmente um painel reunindo informações como os valores pagos a cada empresa, toneladas recolhidas, custo por tonelada, quantidade de equipes em atividade, solicitações recebidas e prazo médio para atendimento.
Uma prestação de contas nesse formato permitiria ao cidadão acompanhar de maneira mais objetiva a relação entre o dinheiro público empregado e o serviço efetivamente entregue.
A pergunta central, portanto, não é apenas quanto existe em contratos relacionados ao lixo, mas quanto Natal realmente desembolsa por mês para coletar, transportar e dar destinação aos resíduos e se esse investimento está sendo percebido nas ruas.
Uma coisa permanece clara: Natal pode e precisa melhorar seu padrão de limpeza urbana.
Uma capital turística precisa cuidar de Ponta Negra, da Via Costeira e das praias, mas também precisa garantir que a limpeza esteja presente nas ruas onde o natalense mora, trabalha e circula diariamente.
Publicado por:
Redação Portal V360
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