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O senador Styvenson Valentim chega às eleições de 2026 com uma estratégia de campanha bastante diferente daquela que marcou sua entrada na política eleitoral. Em 25 de agosto, a direção nacional do Podemos transferiu R$ 3.811.887,03 do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para sua candidatura ao Senado. O valor corresponde a 100% do teto de gastos permitido para uma candidatura ao Senado no Rio Grande do Norte.
O recebimento dos recursos não representa qualquer irregularidade. O Fundo Eleitoral é previsto pela legislação brasileira, e os partidos possuem autonomia para distribuir os valores entre seus candidatos, desde que respeitadas as regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. A discussão em torno do repasse, portanto, não está relacionada à legalidade, mas à mudança de postura de um político que construiu parte de sua imagem justamente defendendo campanhas de baixo custo e criticando o uso de dinheiro público nas eleições.
Uma trajetória marcada por campanhas enxutas
Quando conquistou uma cadeira no Senado, em 2018, Styvenson apresentou uma realidade financeira completamente diferente da atual. Naquele ano, sua campanha declarou apenas R$ 44.561,41 em receitas e não utilizou recursos do Fundo Eleitoral. A estratégia de baixo custo acabou se tornando uma das marcas de sua trajetória política e ajudou a diferenciá-lo dos modelos tradicionais de campanha.
Em 2022, durante a disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte, o senador manteve uma estrutura financeira igualmente pequena. Naquele pleito, recebeu somente R$ 8.412, também sem recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. Agora, quatro anos depois, a realidade mudou de maneira significativa: somente o repasse recebido do Fundo Eleitoral chega a R$ 3.811.887,03.
A diferença entre os valores ajuda a dimensionar a transformação. O montante recebido em 2026 é superior a 85 vezes o total arrecadado por Styvenson em sua primeira campanha ao Senado. Nos primeiros registros de distribuição do Fundo Eleitoral no Rio Grande do Norte, o senador também apareceu como o candidato com o maior repasse, embora esse ranking ainda possa mudar conforme novos recursos sejam registrados.
As críticas feitas pelo próprio senador
A mudança de estratégia ganha peso político quando é comparada às posições defendidas pelo próprio Styvenson no início de sua trajetória no Senado. Em setembro de 2019, o parlamentar subiu à tribuna da Casa para criticar o Fundo Eleitoral. A manifestação está registrada oficialmente pela Agência Senado e faz parte do histórico de posicionamentos públicos do senador sobre o financiamento das campanhas.
Em outro pronunciamento daquele período, Styvenson utilizou sua própria eleição como exemplo para defender que grandes quantias de dinheiro, televisão e rádio não seriam determinantes para conquistar votos. Na ocasião, afirmou que o que ganhava uma eleição era “trabalho, postura, caráter e coerência”. Sete anos depois, justamente a palavra “coerência” volta ao centro do debate em torno de sua candidatura.
A comparação levanta uma questão essencialmente política: se dinheiro, televisão e rádio não eram determinantes para vencer uma eleição, qual é o significado de uma campanha que agora recebe praticamente R$ 3,8 milhões em recursos públicos e alcança, de imediato, o teto permitido para a disputa ao Senado? A pergunta não coloca em dúvida a legalidade do repasse, mas confronta o discurso anterior com a estratégia adotada em 2026.
O senador já havia anunciado a mudança
Apesar da diferença entre as campanhas, existe um contraponto importante para a análise. Styvenson não manteve em segredo a intenção de modificar sua maneira de disputar eleições. Depois da derrota para o Governo do Estado em 2022, quando terminou a disputa em terceiro lugar, o senador afirmou que mudaria sua estratégia e passaria a utilizar as mesmas ferramentas disponíveis aos demais adversários.
Naquele período, Styvenson declarou que recorreria a televisão, rádio e divulgação parlamentar e afirmou que passaria a utilizar “todas as armas que os outros usam”. Em 2023, o parlamentar foi ainda mais explícito ao declarar publicamente que utilizaria o Fundo Eleitoral em uma próxima campanha. Dessa forma, não se pode dizer que a utilização do dinheiro público tenha surgido de forma completamente inesperada em 2026.
O que está em discussão é a dimensão dessa mudança. O político que construiu sua imagem eleitoral a partir de campanhas pequenas e de críticas às práticas tradicionais da política agora inicia a disputa pelo Senado com R$ 3,8 milhões do Fundo Eleitoral, valor equivalente a todo o teto de gastos permitido para sua candidatura no Rio Grande do Norte.
A legalidade não encerra o debate político
O recebimento do Fundo Eleitoral é legal e, por si só, não transforma Styvenson em infrator. A utilização dos recursos públicos segue regras previstas na legislação eleitoral e não diferencia juridicamente sua candidatura das demais que recorrem ao financiamento público para disputar uma eleição.
A questão está no campo político. Candidatos que constroem sua trajetória cobrando comportamentos diferentes dos políticos tradicionais também ficam sujeitos a uma cobrança maior quando mudam de posição e passam a adotar práticas que anteriormente criticavam. Nesse caso, o eleitor pode considerar legítima tanto a mudança de estratégia quanto a cobrança sobre as razões que levaram o senador a adotá-la.
Os números de 2018 e 2026 colocam essa transformação de maneira bastante clara. O Styvenson que chegou ao Senado com R$ 44,5 mil em receitas de campanha agora aparece entre os candidatos que receberam os maiores valores do Fundo Eleitoral no Rio Grande do Norte. A diferença financeira acompanha uma mudança assumida pelo próprio parlamentar em relação à maneira de disputar eleições.
No fim, a comparação mais significativa talvez não seja entre Styvenson e seus adversários, mas entre diferentes momentos da própria trajetória do senador. De um lado, está o candidato de 2018 e o parlamentar de 2019, que defendiam campanhas enxutas e falavam em “trabalho, postura, caráter e coerência”. Do outro, está o candidato de 2026, que recebe R$ 3.811.887,03 do Fundo Eleitoral para disputar novamente uma vaga no Senado.
A mudança é legal e já havia sido anunciada pelo próprio Styvenson. Mas, justamente porque “coerência” foi uma das palavras usadas pelo senador para definir aquilo que considerava necessário para vencer uma eleição, a distância entre seu discurso do passado e a campanha de 2026 deverá continuar sendo explorada politicamente durante a disputa.
Publicado por:
Redação Portal V360
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